Era mais uma daquelas tardes calorentas de verão. Eu saí do prédio e desci a Francisco Sales, em direção à Escola de Medicina. Sempre almoço lá durante a semana, é bom porque me sinto um pouco dentro da Universidade (embora quisesse a Universidade dentro de mim), e também porque saio do prédio, e fico longe das fofocas da hora do almoço, que sempre rolam. Naquela vez, porém aconteceu algo de extraordinário. Como sempre almoço depois das treze, que é quando o Bandejão abre para os visitantes, eu sempre vi pessoas de vários perfis: de residentes vestidos em seus jalecos a moradores de rua, e gente que, como eu, aproveita o horário de almoço e sai para almoçar fora da repartição ou da empresa. Não teria nada de errado, por exemplo, em ver senhoras de idade na fila. Mas aquela senhora era diferente.
Transmitia uma certa diferença, não era alguém comum. Já percebi logo de cara na fila, o modo como se inquietava, mas sem querer perder a pose, virava a cara, para outro lado, a ver o trânsito na avenida. Embora estivesse vestida de modo simples, não se portava de modo simples. Cada movimento seu era calculado, de modo que esta senhora mais parecia uma lady britânica à Vitoriana, do que uma senhora vestindo roupas de verão à brasileira. Depois, já dentro do restaurante, por uma coincidência, acabamos nos sentando juntos, um virado para o outro. A princípio, pensei, não haveria nada de mais, era só não puxar conversa, ela deve ser uma dessas velhas chatas que reclamam de tudo na vida. Mas foi inevitável, a moça que estava a meu lado saiu com o prato cheio, quase intocado, ela teria que comentar. Mas como pode isso? Há tanta gente passando fome no mundo e essa menina desperdiçando comida? Por que ela simplesmente não pôs menos no prato? Sei lá, acho que ela não sabia que não ia querer tudo, acontece, pensei. Quando seus olhos se voltaram a mim, procurando uma opinião, disparei, ela deve estar passando mal. Só se for de má educação, retrucou com uma leve risada. Não falei nada, apenas me virei para meu prato, que já estava quase terminando. Esse povo hoje em dia só pensa em si mesmo, será que não dão valor a nada de bom na vida? Talvez estejam ocupados, pensando em outras coisas. Mas que coisas, hoje é tudo tão fácil de se conseguir, eu queria ver se fosse na minha época...não respondi e continuei meu almoço e por fim terminei. Quando me retirei da mesa, estendi a mão para cumprimentá-la, ela disparou, Pensei que não se iria apresentar a mim...Prazer, meu nome é Bruno. Prazer, Lucinda, sou pesquisadora da Faculdade de Arquitetura. Ahn, eu estudo Geografia. Que belo curso, você está em que período? Sexto. Que bom, já se está formando. É... até mais, Lucinda. Foi um prazer, Bruno. Saí com a estranha sensação de ter tido uma conversa com a Universidade, aquela senhora deve ter uma história acadêmica e tanto.
Voltei caminhando para o serviço, e de tarde não houve nada de mais. A mesma rotina de sempre, protocolar documentos, verificar erros, ouvir no rádio que minha pode ser diferente com Jesus, que basta eu me entregar a ele, e eu pensando se Jesus era um bom nome pra drops, e quem afinal era esse tal Jesus. Quando terminou meu horário, eu fingi não ver e continuei, simplesmente porque não tinha nada em mente pra fazer, apesar de ser Sexta. Só parei quando me perguntaram se eu estava fazendo hora extra, eu disse que não, havia esquecido-me do horário. Saí então meio sem rumo, querendo saber aonde iria tanta apatia.
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