segunda-feira, 10 de maio de 2010
Tristessa
É com este o título de Kerouac que eu resolvo voltar a por algo aqui, preencher este espaço demasiado vazio, um pouco reflexo do meu estado de alma, um pouco uma angústia sentida por algo tão aterrador quanto a possibilidade deste vazio me devorar por inteiro. Eu sei, já me digere aos poucos, e eu sinto cada vez mais, como se o meu ego se diluísse no espaço-tempo (engraçado, eu que ultimamente sinto-me tão apegado a isso, talvez seja o desejo de não me perder). E é por este sentimento tão arraigado em mim, esta corrente que me prende do pescoço aos pés que eu tento reagir, exprimir, traduzir algo tão íntimo que me escapa à mente. E é por este sentimento tão orgânico e tão sintético ao mesmo tempo que eu volto a escrever.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Amuado
Tarde de Segunda-feira, final de mês, eu já cansado de tanto andar atrás de algo a fazer, embora saiba que tenho lá minhas tarefas, enfim, lembrei-me de uma música dos Clã, em parceria com Fernanda Takai, sabe aquela música que te deixa com vontade de deitar e olhar para o céu, a procurar algo que está em ti, enfim, amuado, por sempre estar a procura de algo...
Vejo que estás mais crescida
Já dobras a frustração
Bates com a porta ao mundo
Quando ele te diz não
Envolves o teu espaço
Na tua membrana ausente
Recuas atrás um passo
Para depois dar dois em frente
Amuar faz bem
Amuar faz bem
Ficas descalça em casa
A fazer a tua cura
Salva por um bom amuo
De fazer má figura
Amanhã o mundo inteiro
Vai perguntar onde foste
E tu dizes apenas
Que saíste, viajaste
Amuar faz bem
Amuar faz bem
Nada como um bom amuo
Apenas um recuo quando nada sai bem
E depois voltar
Como se nada fosse
E reencontrar o lugar
Guardado por um bom amuo
...E que venha a semana, guardada por um bom amuo.
Vejo que estás mais crescida
Já dobras a frustração
Bates com a porta ao mundo
Quando ele te diz não
Envolves o teu espaço
Na tua membrana ausente
Recuas atrás um passo
Para depois dar dois em frente
Amuar faz bem
Amuar faz bem
Ficas descalça em casa
A fazer a tua cura
Salva por um bom amuo
De fazer má figura
Amanhã o mundo inteiro
Vai perguntar onde foste
E tu dizes apenas
Que saíste, viajaste
Amuar faz bem
Amuar faz bem
Nada como um bom amuo
Apenas um recuo quando nada sai bem
E depois voltar
Como se nada fosse
E reencontrar o lugar
Guardado por um bom amuo
...E que venha a semana, guardada por um bom amuo.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Crônica de uma Sexta-feira (parte I)
Era mais uma daquelas tardes calorentas de verão. Eu saí do prédio e desci a Francisco Sales, em direção à Escola de Medicina. Sempre almoço lá durante a semana, é bom porque me sinto um pouco dentro da Universidade (embora quisesse a Universidade dentro de mim), e também porque saio do prédio, e fico longe das fofocas da hora do almoço, que sempre rolam. Naquela vez, porém aconteceu algo de extraordinário. Como sempre almoço depois das treze, que é quando o Bandejão abre para os visitantes, eu sempre vi pessoas de vários perfis: de residentes vestidos em seus jalecos a moradores de rua, e gente que, como eu, aproveita o horário de almoço e sai para almoçar fora da repartição ou da empresa. Não teria nada de errado, por exemplo, em ver senhoras de idade na fila. Mas aquela senhora era diferente.
Transmitia uma certa diferença, não era alguém comum. Já percebi logo de cara na fila, o modo como se inquietava, mas sem querer perder a pose, virava a cara, para outro lado, a ver o trânsito na avenida. Embora estivesse vestida de modo simples, não se portava de modo simples. Cada movimento seu era calculado, de modo que esta senhora mais parecia uma lady britânica à Vitoriana, do que uma senhora vestindo roupas de verão à brasileira. Depois, já dentro do restaurante, por uma coincidência, acabamos nos sentando juntos, um virado para o outro. A princípio, pensei, não haveria nada de mais, era só não puxar conversa, ela deve ser uma dessas velhas chatas que reclamam de tudo na vida. Mas foi inevitável, a moça que estava a meu lado saiu com o prato cheio, quase intocado, ela teria que comentar. Mas como pode isso? Há tanta gente passando fome no mundo e essa menina desperdiçando comida? Por que ela simplesmente não pôs menos no prato? Sei lá, acho que ela não sabia que não ia querer tudo, acontece, pensei. Quando seus olhos se voltaram a mim, procurando uma opinião, disparei, ela deve estar passando mal. Só se for de má educação, retrucou com uma leve risada. Não falei nada, apenas me virei para meu prato, que já estava quase terminando. Esse povo hoje em dia só pensa em si mesmo, será que não dão valor a nada de bom na vida? Talvez estejam ocupados, pensando em outras coisas. Mas que coisas, hoje é tudo tão fácil de se conseguir, eu queria ver se fosse na minha época...não respondi e continuei meu almoço e por fim terminei. Quando me retirei da mesa, estendi a mão para cumprimentá-la, ela disparou, Pensei que não se iria apresentar a mim...Prazer, meu nome é Bruno. Prazer, Lucinda, sou pesquisadora da Faculdade de Arquitetura. Ahn, eu estudo Geografia. Que belo curso, você está em que período? Sexto. Que bom, já se está formando. É... até mais, Lucinda. Foi um prazer, Bruno. Saí com a estranha sensação de ter tido uma conversa com a Universidade, aquela senhora deve ter uma história acadêmica e tanto.
Voltei caminhando para o serviço, e de tarde não houve nada de mais. A mesma rotina de sempre, protocolar documentos, verificar erros, ouvir no rádio que minha pode ser diferente com Jesus, que basta eu me entregar a ele, e eu pensando se Jesus era um bom nome pra drops, e quem afinal era esse tal Jesus. Quando terminou meu horário, eu fingi não ver e continuei, simplesmente porque não tinha nada em mente pra fazer, apesar de ser Sexta. Só parei quando me perguntaram se eu estava fazendo hora extra, eu disse que não, havia esquecido-me do horário. Saí então meio sem rumo, querendo saber aonde iria tanta apatia.
Transmitia uma certa diferença, não era alguém comum. Já percebi logo de cara na fila, o modo como se inquietava, mas sem querer perder a pose, virava a cara, para outro lado, a ver o trânsito na avenida. Embora estivesse vestida de modo simples, não se portava de modo simples. Cada movimento seu era calculado, de modo que esta senhora mais parecia uma lady britânica à Vitoriana, do que uma senhora vestindo roupas de verão à brasileira. Depois, já dentro do restaurante, por uma coincidência, acabamos nos sentando juntos, um virado para o outro. A princípio, pensei, não haveria nada de mais, era só não puxar conversa, ela deve ser uma dessas velhas chatas que reclamam de tudo na vida. Mas foi inevitável, a moça que estava a meu lado saiu com o prato cheio, quase intocado, ela teria que comentar. Mas como pode isso? Há tanta gente passando fome no mundo e essa menina desperdiçando comida? Por que ela simplesmente não pôs menos no prato? Sei lá, acho que ela não sabia que não ia querer tudo, acontece, pensei. Quando seus olhos se voltaram a mim, procurando uma opinião, disparei, ela deve estar passando mal. Só se for de má educação, retrucou com uma leve risada. Não falei nada, apenas me virei para meu prato, que já estava quase terminando. Esse povo hoje em dia só pensa em si mesmo, será que não dão valor a nada de bom na vida? Talvez estejam ocupados, pensando em outras coisas. Mas que coisas, hoje é tudo tão fácil de se conseguir, eu queria ver se fosse na minha época...não respondi e continuei meu almoço e por fim terminei. Quando me retirei da mesa, estendi a mão para cumprimentá-la, ela disparou, Pensei que não se iria apresentar a mim...Prazer, meu nome é Bruno. Prazer, Lucinda, sou pesquisadora da Faculdade de Arquitetura. Ahn, eu estudo Geografia. Que belo curso, você está em que período? Sexto. Que bom, já se está formando. É... até mais, Lucinda. Foi um prazer, Bruno. Saí com a estranha sensação de ter tido uma conversa com a Universidade, aquela senhora deve ter uma história acadêmica e tanto.
Voltei caminhando para o serviço, e de tarde não houve nada de mais. A mesma rotina de sempre, protocolar documentos, verificar erros, ouvir no rádio que minha pode ser diferente com Jesus, que basta eu me entregar a ele, e eu pensando se Jesus era um bom nome pra drops, e quem afinal era esse tal Jesus. Quando terminou meu horário, eu fingi não ver e continuei, simplesmente porque não tinha nada em mente pra fazer, apesar de ser Sexta. Só parei quando me perguntaram se eu estava fazendo hora extra, eu disse que não, havia esquecido-me do horário. Saí então meio sem rumo, querendo saber aonde iria tanta apatia.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Frases Soltas (Reflexões conexas)
Eu estava reparando, nesta grande obra que é a duplicação da Avenida Antônio Carlos, todo dia eu reparo em alguma mudança, alguma obra já pronta, ou que está sendo construida, como o trânsito flui depois de certo ponto, enfim, as pequenas mudanças quotidianas de cada dia. Mas não deixei de reparar a forma invasiva como esta obra (que na verdade é um conjunto de obras) se está dando, invasiva, porque me parece que expõe certos espaços, como se quisesse engoli-los. Na verdade tudo, o marketing, a forma faraônica como se constrói, sem diálogo com a sociedade, tudo isso é invasivo. E eu percebo um pouco dessa invasão através das frases soltas deixadas pelos artistas de rua, sempre ou quase sempre invisíveis aos olhos do senso comum:
"O vento sopra, os obstáculos fazem a música"
"O asfalto me atropela"
"Se essa rua, se essa rua fosse minha, se essa rua, se essa rua fosse casa..."
"Comunidade sem unidade"
"Aqui, neste momento, eu pego o pincel e lanço uma poesia na sua testa!"
"A passos pássaros passo"
"O vento sopra, os obstáculos fazem a música"
"O asfalto me atropela"
"Se essa rua, se essa rua fosse minha, se essa rua, se essa rua fosse casa..."
"Comunidade sem unidade"
"Aqui, neste momento, eu pego o pincel e lanço uma poesia na sua testa!"
"A passos pássaros passo"
terça-feira, 16 de março de 2010

Voltando a falar sobre o tempo... eu me havia esquecido de como são bons certos momentos. Por exemplo, a tarde sempre traz uma certa sensação de ócio, ao menos quando não se está trabalhando (óbvio!), mas particularmente eu me lembrava de quando estudava na quarta série, e depois de voltar para casa e almoçar, não tinha muito o que fazer. Às vezes eu tirava uma sesta, ou lia quadrinhos (adivinha só... Turma da Mônica). Fazer o dever de casa não era muito a minha praia (até hoje não é), mas eu gostava de pegar o caderno pra escrever algumas coisas. Tipo, escrevia estórias pra depois poder encená-las p'ra mim mesmo. Lembro-me de duas delas particularmente porque as apresentei em sala, como trabalho de Literatura. Mas o que me prendia não eram as estórias em si, mas como eu as transpassava da imaginação p'ra realidade, e como a minha casa numa tarde chuvosa tornava-se um ótimo cenário para uma história de aventuras, ou de terror, ou mesmo uma novela. Eu me apropriava então da sala e fazia as minhas firulas (ainda bem que minha mãe tarbalhava e não ficava em casa, senão não estaria contando tudo isto). Eu tenho uma saudade desta época, principalmente nas tardes nubladas, como hoje, porque eu já não tenho mais (e nem sou mais) esta máquina criativa dentro de mim, esta inquietação, este comichão que me levava a escrever durante horas. Bem, p'ra terminar mesmo com esse papo estranho, acho melhor citar uma música dos Legião Urbana, "Tempo Perdido" (acho que é esta mesma a sensação que eu tenho, que "o meu tempo passou"):
Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...
Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder...
Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E Selvagem! Selvagem!
Selvagem!...
Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos...
Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo...
Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens...
Tão Jovens! Tão Jovens!...
Voltando do almoço
Bem, espaço re-ocupado! Desta vez, tenho companhia (alguém já notou que "companhia" tem o "n" mudo? Herança de nossos ancestrais galegos, hehe...), sim, resolvi revelar-me para um amigo, e até agora estamos bem, trocando algumas confidências literárias, e o tempo parece estar a nosso favor, é o que me parece.
Tempo , tempo, mano velho...
Hoje vou falar do tempo. Não a medida física em segundos, minutos, horas, dias... Não. É sobre aquilo que a gente tem na cabeça, desde que se entende por gente, aquela sensação de distância, como se tudo estivesse mudando desde que começou. Se eu não me engano, segundo a Física, o tempo é uma variante e está ligado ao espaço. No meu parco entendimento, eu me sinto como se estivesse a mover-me dentro de uma caixinha, e a cada novo passo que eu desse, eu estaria em uma nova caixinha, mas que no final é a mesma. Por isso a sensação tão estranha quando se vai a mesmos lugares durante horários diferentes. Mas este espaço físico pode mudar de realidade, quer dizer, de como é percebido, de acordo com o tempo. Mas estas são variantes que dependem de como nós, humanos, utilizamo-nos deste espaço. Algo, enfim, que gera uma discussão enorme, mas que eu não estou muito a fim de fazer, porque eu tenho que ir almoçar e o laboratório de informática está fechando. Enfim, eu vou ter que me deslocar no espaço, sair deste onde estou, que agora tem gente, mas daqui a cinco minutos será só uma sala trancada, e daqui a uma hora voltará a ser o laboratório de informática por onde posto meu blog. Até lá, então...
terça-feira, 9 de março de 2010
Eu citei o 9 de Março por mim, pois hoje eu tive uma revelação especial: que devo levar minha vida mais tranquilamente, sem me preocupar com mesquinharias, coisas que no final não têm valor algum. E isto me deixou mais disposto a seguir em frente, em luta, a não ficar no meio do caminho por nada, pois sei que, como diria Brecht, "o mundo espera de mim minhas exigências". E com certeza, terei-as e irei até o fim para cumpri-las.
E viva o 9 de Março! Eu sei, ontem foi Dia Internacional da Mulher, eu estava na manifestação no Centro. E foi um grande dia, pois se completaram cem anos de luta das mulheres trabalhadoras, não quero desmerecer esta grande data. Mas digo 9 de Março, porque todos os dias são dias para se combater a opressão e a exploração, o machismo, racismo, homofobia e xenofobia, que só fazem-nos ser cada vez menos humanos e mais maquinais, mais engrenagens de um sistema podre como é a atual sociedade humana, capitalista, destruidora de sonhos e de pessoas.
Bem, depois de longo hiato decidi voltar, não por simplesmente terminar o que já começou, mas por dizer que agora, mais do que nunca, é hora de acordar. ACORDAR para a vida, sabe, acordar para tu mesmo, teus desejos e anseios mais secretos e mais sagrados, que só tu sabes quão são bons e o quanto te apetece ter-los contigo, para uma hora, quem sabe, descobrires feliz que já se realizaram.
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